NITERÓI, SEUS PROBLEMAS NUMA MESA DE BAR
Saio da pelada do campinho do Buraco do Boi, com uma certeza de que uma cerveja bem gelada vai cair bem e desanuviar o suadouro. Na barraquinha do Toni, alguns mais espertos que abandonaram o jogo, fingindo de machucados já me servem um copo, para evitar reclamações pela fuga.
E aí o papo rola, desde o penalti perdido pelo Divino, a furada do zagueiro Marcão e o frango do goleiro Bonvini. Para evitar que toquem na minha pífia passagem em campo, procuro mudar de assunto e falar sobre as campanhas políticas de Niterói, as baixarias e absurdos que estamos acompanhando.
Moraes, para variar, começa a reclamar da morosidade que enfrenta no trânsito na cidade. Como motorista de taxi, tem sofrido com os constantes gargalos que tornam dirigir em Niterói um suplício. Emendo de bate-pronto, dizendo que muitos consideram a Ponte como um entrave da cidade, mas que, na minha opinião, a Ponte faz parte do problema. Varias vezes, atravesso a ponte em vinte minutos e caio no marasmo do engarrafamento da Marquês de Paraná, que me faz levar mais de uma hora para atingir minha casa em Santa Rosa.
Com a sua experiência do dia a dia no volante, Moraes amplia a discussão:
- pessoal, não é só no sentido Rio Niterói e em dias úteis. Aos sábados, parece que todos que atravessam de barca para trabalhar durante a semana no Rio, ficam na obrigação de colocar os carros na rua e praticamente param o miolo de Icaraí. Esse negócio da lei seca e essas apurrinhações de dirigir nos engarrafamentos me fizeram optar a colocar o taxi na rua apenas à noite. É menos stress, conclui forçando no chiado nos ssss.
Ivan, com seu portunhol, levanta uma bola arrolando o incremento do ttrânsito à desmesurada especulação imobiliária que a cada dia faz sumir um casarão que abrigava uma família, diga-se lá com dois carros, para construir espigões com oitenta moradias e cada uma com duas vagas de garagem. "No tienes calles que resistan", arremata o boliviano.
- é isso aí mermão, não vai ter água, nem esgoto com esse povaréu que tá vindo do Rio para morar aqui na cidade Sorriso. Eles pensam que é só pagar a barca para ir trabalhar, mas não viram ainda a pivetada que fica na Amaral Peixoto e no Terminal cheirando cola e assaltando, comenta o Luizão.
Merinho, com os pelos eriçados, já por conta do sua eterna aversão ao PT, aproveita a deixa e pausadamente arremete a uma reflexão:
-pois bem pessoal, essa turma do PT que se diz preocupada com o social, não vê essa meninada abandonada. É um perigo chegar pelas barcas tarde na noite e ter que pegar aquela fila de taxi que anda para traz na Rua da Conceição. Os garotos saem em grupos e não respeitam nada, vão arrancando tudo que se tem nas mãos. às vezes encontro com Carlinhos e seu grupo da porrinha, na esquina dos Correios, para espantar o magote de infelizes. Cadê o Poder público que deveria estar reprimindo esta algazarra. Os guardas municipais já devem estar em casa recolhidos enquanto a população passa por sobressaltos nas ruas desprotegidas.
Chega Michael Jackson, o juiz da pelada, para completar:
- êles se recolhem cedo, porque tem que estar no outro dia entoando a sinfonia dos apitos, regulamentando, com seus cones vermelhos, o trânsito na Roberto Silveira. Moro ali perto e às cinco e meia começa a alvorada.
Aproveito para comentar:
- é a engenharia de trânsito da cidade, lastreada em apitos e cones. Não há um planejamento, não há uma verificação dos volumes de tráfego na malha viária. Tudo é feito no chute, e os chutes estão mais errados que os do Chico do Boné. É necessário um trabalho planejado, com especialistas. Temos um grupo da UFF que é um celeiro de bons técnicos que podem ajudar na rearrumação urbanistica. Assim como fizeram com o controle das inundações, que infelizmente a Prefeitura não levou avante, é possível atacar esse problema, senão a cidade vai parar.
- a cidade já está parada!! arremata Moraes, pontificando a deixa para encerrar a minha participação na discussão e na cervejada.
Espero que alguém tenha gravado esses debates de beberrões, sedentos depois de uma pelada e críticos do dia a dia da cidade Sorriso e das mazelas dos administradores que somente pensam no imediatismo da reeleição e deixam de engrandecer a sua passagem pela Prefeituta com soluções que viabilizam e eternizam a qualidade de vida dos seus cidadãos. É preciso deixar os gabinetes e estudar as circunstancias de uma cidade que tem uma população trabalhando em outro município, tendo modais de transporte que apresentam gargalos nos horários críticos, e além disso, um outro grupo enorme de trabalhadores procedentes das vizinhanças como Itaboraí, São Gonçalo e Maricá, que também atravancam esses meios de ligação com o Rio.
Já no carro de volta para casa, vem um ponto de reflexão: Que seria do Rio de Janeiro hoje, se um administrador não tivesse a ousadia de varar o Tunel Rebouças e fazer o aterro do Flamengo.
Escrito por deoqueiroz às 21h00
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